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Tem perigo na rede, delete já os sites que defendem a anorexia

Difícil de acreditar: existem páginas na internet criadas por garotas que adotam o transtorno alimentar como um estilo de vida. Obcecadas pela aparência, fazem de tudo para ficar cada vez mais magras. Só esquecem de dizer que essa doença mata

por Débora Lublinski fotos Duca Valery

“Prezada leitora, gostaria de me apresentar: sou chamada pelos doutores de anorexia nervosa, meu nome completo. Mas você pode me chamar de Ana. Assim, poderemos nos tornar grandes parceiras. Quero investir muito tempo em você. Vou colocar coisas na sua cabeça, pensamentos sobre comida, peso e calorias. Quando perguntar ao seus amigos se está gorda e eles responderem 'não’, saberá, lá no fundo, que é mentira, que precisa perder mais alguns quilos. Apenas eu digo a verdade! Eu sou o seu melhor apoio, a sua única amiga. Com sinceridade, Ana.”

A carta acima é apenas um trecho da assustadora mensagem de apresentação retirada de sites que cultuam a anorexia, um transtorno alimentar caracterizado pela distorção da imagem corporal que leva a pessoa a deixar de se alimentar. Chamados de pró-ana (abreviatura de anorexia), eles pipocam na internet em páginas brasileiras e estrangeiras de garotas, principalmente adolescentes, que consideram a doença um verdadeiro estilo de vida para deixá-las magras, bonitas e, acima de tudo, participantes da sociedade. O alerta chegou aqui na redação por meio de um e-mail: “Entrei em um desses sites e fiquei realmente apavorada. Isto é um perigo! O mais incrível é
saber que essas meninas estão usando a criatividade e a habilidade para uma coisa tão louca!”, contava a leitora Clarissa Mota.
emagrecer a qualquer custo
Clarissa tem toda razão. Essas páginas são recheadas de dicas, conselhos e histórias para incentivar e ensinar garotas a emagrecer sem nenhuma preocupação com a saúde. “Limpe algo bem sujo para você perder o apetite. Pode ser a privada, o ralo ou qualquer coisa que cheire mal e tenha uma aspecto nojento”, é a sugestão absurda de um dos endereços eletrônicos. Ou ainda: “Se você for forçada a comer, procure encher um copo opaco com água pela metade. A cada garfada cuspa a comida conforme finge que está bebendo”. E não pára por aí: as páginas pessoais transformam-se em verdadeiras salas de bate-papo para trocas de experiências e mensagens de incentivo a ponto das participantes lançarem um desafio. O movimento No Food prega o jejum durante sete dias para conseguir uma rápida perda de peso. “Tomara que eu consiga ficar a semana toda sem comer nada. Afinal, na segunda começam as minhas aulas e eu preciso estar magrinha”, dizia uma das garotas.
mais grave do que você pensa
“Nenhuma doença que causa a morte pode ser considerada um estilo de viver”, adverte Erika Romano, nutricionista do Ambulatório de Bulimia e Anorexia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, o Ambulim. Os números comprovam: cerca de 20% dos casos são fatais. Esse transtorno pode levar a um estágio de desnutrição clínica a ponto de exigir internação e, na maioria das vezes, tratamentos multidisciplinares com psiquiatra, psicólogo e nutricionista.

“Uma simples dieta para perder 1 ou 2 quilinhos pode, em quem já tem uma predisposição, detonar um processo de distorção da imagem corporal. A partir disso, essas garotas, mesmo magérrimas, se vêem gordas e continuam querendo emagrecer mais e mais”, explica Fábio Salzano, psiquiatra do Hospital Dia do Ambulim, de São Paulo (SP). As conseqüências são dolorosas: amenorréia (suspensão da menstruação), queda de cabelos, desmaios freqüentes, pressão baixa, problemas de pele, depressão, entre outros sintomas gravíssimos. “O medo de engordar é muito maior do que o de morrer”, atesta Erika Romano.
De acordo com o psicólogo Marco Antonio de Tommaso, um estudo norte-americano comprovou que 90% dos 600 a 800 anúncios publicitários a que somos submetidos por dia são ilustrados com mulheres magras. “Quando a gordinha aparece, está sempre fazendo papéis jocosos”, analisa. “De uma forma subliminar, o cérebro registra essa mensagem, o que leva a busca pela magreza para não ser rejeitada socialmente”, completa. Mas essa padronização da beleza é muito complicada justamente porque a brasileira possui biótipos bem diversificados.
beleza na medida certa
Mara Cristina Souza de Lucia, diretora do Centro de Estudos em Psicologia da Saúde, lembra que as mulheres devem, sim, cuidar do corpo: “O conceito de que só é bela quem já nasceu assim acabou. Nós lutamos por isso também”. Essa batalha perde o sentido, entretanto, quando tal projeto triunfa sobre todos os outros aspectos da nossa vida. E o pior de tudo é ver esse tipo de comportamento conquistando adeptos via internet. Por isso, não vale a pena navegar nessas páginas nem que seja por curiosidade. É a escolha por um caminho que aprisiona e está fadado a um inevitável fracasso (muitas vezes à morte!) — exatamente o oposto do que a gente tanto busca.
ALERTA GERAL
Algumas atitudes como as descritas a seguir podem indicar uma tendência à anorexia e a necessidade de consultar um nutricionista, psicólogo ou psiquiatra.
• Sentir-se gorda (mesmo que esteja extremamente magra e todos digam isso).
• Passar a maior parte do dia preocupada com o peso.
• Sentir medo incontrolável de voltar a engordar.
• Preocupar-se excessivamente com valores calóricos.
• Sentir-se culpada ao comer qualquer coisinha.
• Brincar, cortando e selecionando alimentos durante as refeições para, depois disso tudo, ingerir uma quantidade mínima.
• Fazer exercícios compulsivamente, inclusive de madrugada.
• Ter obsessão por comida a ponto de escondê-la em armários ou gavetas.
• Mudar repentinamente de personalidade: de ativa e alegre, a garota passa a ficar deprimida e fechada.
onde encontrar ajuda

• Ambulatório de Bulimia e Anorexia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (Ambulim) % (11) 3069-6975, SP.
• Grupo de Estudos em Nutrição e Transtornos Alimentares: www.genta.com.br ou pelo email: genta@genta.com.br
• Centro de Estudos em Psicologia da Saúde % (11) 3064-3186, SP.
• Grupo de Estudos e Assistência em Transtorno Alimentar (Geata) % (51) 3232-5564, RS.
• Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (Setor de Transtornos Alimentares e Obesidade do Departamento de Psiquiatria) % (21) 2221-4896, RJ.

A anoréxica, mesmo magérrima, se vê gorda e continua querendo emagrecer mais e mais. O medo de engordar é maior do que o de morrer!


Produção: Jaqueline Lopes. Cabelo e maquiagem: Marcos Ribeiro (Angel Agent). Ela usa: Hering. Locação, Madeira Bonita.


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