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Tal mãe, tal filha

Dos centímetros a mais no quadril à facilidade de engordar, passando pela irresistível vontade de comer doces. Tudo isso você pode puxar de sua mãe. A genética fala alto, sem dúvida, mas nada de pânico: boa parte dos problemas herdados pode ser driblada com a dupla infalível, ginástica e alimentação correta. Receita aqui.

por Mônica Manir / foto Fábio Mangabeira

Nem o nariz, nem os olhos, nem a cor dos cabelos. Quando perguntam à professora de educação infantil Andrea Lia Bechara, 30 anos, o que ela tem em comum com a mãe, Hedy, a primeira resposta é a seguinte: “A tara por doces”. As duas não passam sem sobremesa na hora do almoço e sempre beliscam alguma guloseima antes de dormir. A segunda resposta é menos animada. Filha e mãe têm tendência para engordar e já foram cúmplices de várias dietas. Aos 53 anos, Hedy está acima do peso — 69 quilos para 1,59 metro —, excesso adquirido depois da gravidez. Quer perder 5, apenas para se sentir mais saudável. Privações alimentares? Huuum... “Não pretendo deixar de comer nada, embora também não faça grandes loucuras”, pondera. Andrea mantém os 53 quilos em 1,54 metro porque malha quatro vezes por semana e segura a onda à mesa. “Eu me controlo muito porque sei que a tendência para engordar é superforte.”

De fato, com a genética não dá muito para brincar, principalmente quando se fala nas características que a mãe pode passar para a filha. Ainda que o pai contribua com metade do DNA, o fato de as duas estarem sujeitas à gangorra dos hormônios mês a mês aproxima seus destinos. “As mães dão ótimas pistas do que pode acontecer com o corpo das filhas no futuro”, afirma o endocrinologista Filippo Pedrinola, de São Paulo (SP). Dos centímetros a mais no quadril aos quilos resistentes após a gravidez, da preferência por um certo prato à preguiça de fazer exercício, a genética fala alto.

Acontece que ela não trabalha sozinha, mas faz sociedade com os hábitos do dia-a-dia. “O que herdamos é genético, mas essas características sofrem influência do estilo de vida”, lembra Decio Brunoni, geneticista do Centro de Genética Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Isso significa que (ufa!) é possível driblar certas características genéticas não muito desejáveis e mudar o perfil do retrato da família. Depende basicamente de reconhecer a tendência e investir nas soluções que, muitas vezes, estão bem à mão.

pêra ou maçã?
Pêra é coisa de mulher, maçã do seu pai. Sem esquecer as exceções, dá para fazer essa associação quanto ao tipo de corpo que você herdou. Em geral, as mulheres concentram a gordura do quadril para baixo e ganham forma de pêra, também conhecida como ginóide. Já os homens tendem a engordar no abdômen – daí o perfil de maçã ou androgênico. O.k., mas digamos que sua mãe seja do tipo maçã (menos comum, como foi dito, mas perfeitamente possível) e você, mesmo assim, não consegue passar o jeans pelo bumbum toda vez que volta das férias com uns quilos a mais. “Pode ser uma herança da tia ou da avó”, lembra Decio Brunoni. Certas características pulam gerações e, por isso, é importante observar a árvore genealógica como um todo.

Há outras marcas pontuais que valorizam a força dos genes. Nas poucas vezes em que extrapola seus rasos 47 quilos, a promotora de justiça Priscila Maiello Prado, 30 anos, percebe que engorda nas costas, logo abaixo dos braços. “Acontece igualzinho com a minha mãe”, diz. O quadril proporcional e as pernas finas, também herdados, ajudam a manter o corpo em cima. Melhor ainda: sem estrias nem celulite – outras características que pegam carona no DNA. Dá, porém, para driblar a tendência a desenvolver culote, barriguinha e celulite reduzindo a gordura corporal.

isto funciona

• Se você tem corpo tipo pêra e, portanto, tendência a acumular mais gordura na região do culote, dá para reduzi-lo fazendo exercícios aeróbicos (caminhada, corrida, natação). Claro que esse tipo de atividade reduz a adiposidade do corpo como um todo, mas se o seu problema maior é o culote, é lá que o benefício será mais evidente. Tonificar os músculos laterais das coxas também é uma boa pedida para deixá-las mais firmes e bem desenhadas. Só não aposte na hipertrofia, pois se os músculos crescerem, o culote vai ficar mais aparente. “O ideal é ter mais repetição e menos carga”, diz a personal Patrícia Miguel. Ela sugere três séries de 12 a 15 repetições.

• O corpo tipo maçã é marca registrada da família? Dê o gás nos exercícios aeróbicos, que reduzem a gordura também na barriga e não se esqueça dos abdominais.

• Atenue a celulite reduzindo gorduras e carboidratos do mal (farinha branca, açúcar) do seu cardápio. a herança está no prato

Sua mãe é fissurada por pão? Está mais para um rodízio de carnes? Ou é do tipo light? Se pensa que isso não diz respeito a você, pense de novo. De acordo com uma pesquisa americana coordenada pelo psicólogo John de Castro, professor da Georgia State University, em Atlanta, a hereditariedade tem tudo a ver com a preferência alimentar. Ao estudar o comportamento de gêmeos à mesa, ele percebeu que, mesmo vivendo longe um do outro, eles recheavam seus pratos com quantidades bem semelhantes de carboidratos, proteínas e gorduras. John afirma que a resposta do nosso cérebro aos diferentes sabores tem relação ancestral com a genética e isso, claro, influencia a escolha do cardápio.

Por outro lado, os especialistas lembram a importância do ambiente familiar na hora de montar o prato. “Os hábitos adquiridos respondem por uma parte importante do peso — ou pior, do sobrepeso”, diz a nutricionista Ana Paola Monegaglia, de São Paulo. O fato é que a ciência ainda não decidiu o que pesa mais. Por isso, previna-se contra os dois riscos. Ainda que seus genes estejam implorando pela lasanha da mamma, você pode driblá-los cultivando hábitos saudáveis.



isto funciona
• Se você vem de uma família em que qualquer refeição mais parece um banquete, escape do esquema. Ponha menos cominda no prato e não repita. Se compra comida pronta, procure produtos individuais, para solteiros.

• É hábito de casa fazer as refeições vendo TV? Melhor desligar o aparelho e prestar atenção apenas ao prato. Você tende a comer menos quando se concentra no sabor dos alimentos.

• Seis refeições por dia é o ideal. Assim você fraciona seu apetite e evita a montanha de comida no prato. Se entre elas bater fome, coma frutas secas ou um iogurte light.


malhadora de nascença
Há famílias em que todo mundo tem um troféu ou uma medalha para exibir às visitas. São hábeis em esportes, não pulam o horário da ginástica e passam mal quando não podem treinar. Para Walace Monteiro, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Gama Filho, também no Rio, essa tendência vem, em grande parte, do estímulo dos pais para os filhos trabalharem o corpo desde cedo. Mas parece haver um componente genético nessa questão. Na Universidade de Chicago, mais um estudo feito com gêmeos idênticos mostrou que aqueles que gostam de se exercitar fazem isso com ou sem incentivo. E mais: acabam gostando das mesmas atividades. Walace afirma que, no entanto, mesmo quando a prática de exercícios não está no sangue, ela pode ser adquirida. O primeiro ponto, diz ele, é descobrir uma atividade que gere interesse. “Precisa ser um prazer, não uma obrigação”, afirma.

isto funciona
• Facilite a sua vida de malhadora escolhendo uma academia perto de casa ou do trabalho. Fica mais difícil faltar. E para reforçar sua disciplina, conte com uma amiga pontual que a espera na porta de casa às 7 da manhã, um personal trainer ou sua própria mãe, disposta a dividir os genes e o bem-estar.

• Como os músculos não crescem nem as gordurinhas desaparecem de uma hora para outra, valorize
outras transformações positivas obtidas com os exercícios. Seu humor, sua disposição e o seu sono vão melhorar da noite para o dia.

uma locomotiva ou um vagão?
Os genes também atuam sobre o gasto energético, em especial sobre a taxa metabólica basal, isto é, a quantidade de calorias que o seu corpo gasta em funções básicas como a circulação sanguínea, a respiração e a digestão. Isso significa que você pode ter herdado o metabolismo ágil da sua mãe (ou do seu pai), que queima calorias rapidíssimo. Ou então ter adquirido a lentidão do processo, que pode levar a quilos extras.

A artista plástica Vanessa Lalli, 28 anos, puxou da mãe o metabolismo elétrico. Perdeu peso fácil após as duas gestações. “É uma bênção!”, reconhece. Para quem não se sente tão abençoada assim, o recado é identificar essa herança na família, em especial na mãe pós-gravidez ou pós-30 anos. Estudo da University Hospital em Essen, na Alemanha, afirma que um gene específico pode tornar mais difícil a perda de peso depois da gestação. Ou seja, se a sua mãe não emagreceu ou sofreu um bocado pra isso depois do parto, procure engordar pouco quando chegar a sua vez. Estenda o recado para depois dos 30, quando o metabolismo começa a diminuir naturalmente. Aliás, dos 30 aos 40 anos é a fase da vida em que mais se ganha peso. Portanto, olho vivo nos exercícios e na alimentação!

isto funciona
• Um metabolismo lento pede exercícios que criem mais musculatura, como a musculação, ginástica localizada e body pump. “Quanto maiores os músculos, mais energia seu corpo vai gastar para mantê-los, acelerando o metabolismo”, diz a personal trainer Patrícia Miguel.

• Em seguida da ginástica com peso, pratique uma atividade aeróbica, como corrida e caminhada, o que vai deixar o seu metabolismo ainda mais rápido.

• Fibras alimentares — presentes nos cereais e vegetais — são bárbaras para acelerar o metabolismo. Como elas melhoram o funcionamento do intestino, auxiliam os demais nutrientes a passar pelo sistema digestivo.

questão de fibra
Você malha como louca e, ainda assim, não sente o corpo tão firme como gostaria? Pode ser culpa da genética, que determina a quantidade de fibras brancas e vermelhas que formam seus músculos. Funciona assim: as fibras brancas são de contração rápida. Respondem quase de imediato a exercícios com peso, por exemplo. Já as vermelhas são de contração lenta e resistem melhor à fadiga, embora firmeza não seja seu forte. Se a sua mãe tem tendência à flacidez, é provável que tenha mais fibras vermelhas do que brancas. Como a questão é hereditária, comece a se precaver desde já.

isto funciona
• Difícil o corpo “cair” de uma vez. Começa na casa dos 20 anos na região do bumbum e das pernas. Lá pelos 30 pega a barriga, principalmente de quem passou por uma gravidez. Aos 40, afeta mais os braços. Portanto, foco total nessas regiões com ginástica localizada, body pump e musculação.

• Um sono dos deuses é essencial para a renovação das células. Para ter uma noite renovadora, prepare o ambiente com aromas relaxantes, evite jantares pesados e tome um banho morno.

Os hábitos do dia-a-dia são importantes na definição do corpo que teremos no futuro. Ou seja, se vamos ganhar quilos extras ou continuar magras. A genética, porém, tem um papel mais importante do que se suspeitava até recentemente, principalmente em aspectos como o tipo de corpo (pêra, maçã...), a tendência a engordar e até mesmo o fato de gostarmos de doces ou de exercícios.


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