“Sou extremamente urbana, adoro a cidade grande, a correria da minha profissão – sou assistente de produção na TV Record. Amo tudo isso, apesar de sofrer de stress por viver em São Paulo. Nunca havia pisado em uma trilha. Meus amigos, que são fi ssurados nesse tipo de aventura, sempre me chamavam, mas eu não aceitava. O motivo principal? Tenho pavor de aranhas.
Quando recebi o convite de BOA FORMA para fazer um trekking, bateu muita dúvida. Por um lado, o contato com a natureza seria ótimo para relaxar, já que o final do ano sempre me deixa muito estressada. Mas o que fazer com as aranhas? Ok, decidi, tinha chegado a hora de enfrentá-las!
Para começo de conversa, não tinha idéia do que vestir. Liguei para uma amiga expert em trekking. Sábia decisão! Ela me emprestou uma pochete, para carregar protetor solar, repelente, algumas barrinhas de cereais e minhas inseparáveis fivelinhas tic-tac. E a roupa certa: uma camiseta de fibra sintética incrivelmente leve (aprendi que as de algodão acumulam suor), uma calça de ginástica (não faz o meu estilo, mas ela me convenceu que, por ser colada ao corpo, não enrosca em nada e dá maior liberdade de movimento) e ainda uma tal bota de goretex, queiria manter meus pés secos (será?). Na véspera, tudo pronto e eu já me sentia uma autêntica aventureira.
chuva e cachoeirasPartimos às 7 horas, em direção ao vilarejo de Catuçaba – próximo a São Luís do Paraitinga –, porta de entrada do roteiro escolhido, a Trilha das Sete Cachoeiras, organizado pela agência Biotrip, em São Paulo, batizado assim porque cruzaria sete cachoeiras, passando por corredeiras e piscinas naturais. O fato de ser classifi cada como grau médio de difi culdade me deixou apreensiva, talvez fosse um pouco demais para uma novata como eu, que teria de enfrentar cerca de 7 quilômetros de trilha, sendo que mais da metade de subida... Ufa, cansei só de imaginar!
Após duas horas de muita chuva, chegamos ao Refúgio das Cachoeiras, ponto de partida da caminhada. Fomos recebidos com um delicioso café-da-manhã, onde tomei um suco diferente e delicioso: de couve, maracujá e limão. Depois das apresentações entre o grupo, fiquei mais confortável ao saber que os outros também estavam ansiosos. No início, a trilha era aberta, um alívio para mim.
De repente, a cachoeira do Arco-Íris surgiu na minha frente, linda! Por alguns instantes, enquanto admirava a queda-d´água, esqueci do medo. Continuamos até a cachoeira das Bromélias e o sol começou a sair timidamente. E não é que a tal bota de goretex funcionava mesmo. Enfiei os pés dentro do rio até cobrir o calcanhar e não entrou nenhuma gota de água. Incrível!
fortes emoçõesA partir desse ponto, a mata começou a fechar e as aranhas voltaram a assombrar minha mente. Chegamos em uma pinguela. Aquela ponte feita de troncos somou mais um pânico na minha lista –- será que eu ia escorregar? Não foi desta vez. Pouco antes da cachoeira dos Macacos, chegamos em um trecho acidentado. Eu tive que segurar firme em cordas para atravessar o rio e também para escalar alguns blocos de pedra. Fiz malabarismo para não cair, deu um friozinho na barriga.
Eu já estava ficando cansada quando veio a notícia: o guia informou que a trilha iria ficar íngreme! E, bem na parte mais puxada da caminhada, começou a garoar. A trilha ficou escorregadia, não sabia onde pisar, com medo de cair ou atropelar um bicho... sei lá! Fiquei no grupo dos retardatários, o que acabou sendo bom. Deu para dar uma parada e matar a sede. Mergulhamos em um belo poço e aproveitei para dar um tapa no cabelo e reaplicar o protetor no corpo. Principalmente nas tatuagens, pois não quero que desbotem com o sol.
Essa pausa veio exatamente antes da hora do pânico. O próximo desafio era cruzar um rio com água até a cintura. Perguntei ao guia sobre o risco de encontrar aranhas. Ele respondeu: ‘Sim, bastante. E pedras também!’ Travei. Não conseguia me mover. Perguntei de novo e, aleluia!, descobri que ele tinha entendido areia em vez de aranha... que sufoco!
Para tornar a travessia ainda mais emocionante, a mata fechou completamente. Medo de aranha, sem ter para onde correr, água gelada, risco de escorregar... Mobilizei todos os meus esforços para enfrentar o percurso e, mais uma vez, lembrei da minha amiga: o conforto da roupa valeu muito nesse momento. A camiseta secava rápido, a calça não tolhia os movimentos e a bota, sem comentário, virei fã! Nada de brinco gigante, pulserinha ou outros acessórios supérfluos. No meio do mato ninguém vai reparar se você está ou não com ‘aquele’ brinco.
Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que eu quase tinha esquecido... mas, de repente, cruzando o rio, advinha quem surgiu? Minhas pernas amoleceram, mas engoli o choro e segui em frente acelerando o passo. Foram só uns 15 minutos, que para mim pareceram horas! Ainda bem que o encontro com a ‘fera’ rolou no final do percurso. Depois da sétima cachoeira, a Encantada, pegamos uma estrada de terra com paisagem aberta para um grande vale. Foi então que a caminhonete veio nos buscar. Não vou mentir – uma verdadeira visão para quem estava exausta e faminta.
comida caseira e causos
Após um revigorante banho, o almoço com cardápio da roça pareceu um banquete: saladas fresquinhas, arroz e feijão com tempero caseiro. Zé Carlos, dono do Refúgio, embalou a refeição com causos da região. A história da portuguesa bigoduda que torturava seus escravos em seu casarão me impressionou. O lugar, desde o século XIX, tem fama de mal-assombrado. Credo! Preferi os temas mais clássicos, envolvendo matas e sacis.
Os músculos das minhas pernas estavam doloridos, parecia que eu tinha malhado pesado. Mas a mente, relaxada. Como temos que nos concentrar nas trilhas, não sobra tempo para pensarmos nos problemas. Mais do que isso, caminhar na natureza faz a gente refletir sobre nossos sentimentos. Gostei do cheiro da mata, do canto dos pássaros, das pessoas que conheci, da comida. Mais importante: senti orgulho de mim mesma por tudo o que fiz. Valeu a pena!”
para ir mais longe
Está a fim de encarar um trekking? Veja o que é indispensável
• Use roupas leves, evitando caminhar com peças de algodão, pois acumulam muito suor. As camisetas de fibra sintética são as mais recomendadas: secam rápido, são leves e confortáveis. As calças de ginástica – legging ou corsário – são perfeitas para caminhadas em trilhas.
• Use um calçado amaciado e de preferência de cano alto (tipo bota) para evitar bolhas e torções. Os modelos com tecnologia goretex (impermeáveis e transpiráveis, de várias marcas) são mundialmente reconhecidos como os melhores para atividades ao ar livre.
• Uma mochila pequena ou pochete grande.
• Para comer: barras de cereais, sanduíches, biscoitos doces e salgados, frutas desidratadas.
• Protetor solar para o corpo, para os cabelos (boné também é uma boa pedida) e para os lábios.
• Kit de primeiros socorros (conheça e saiba como usar cada item!).
• Garrafa tipo squeeze ou cantil.
• Agasalho de goretex (de várias marcas) ou impermeável para chuva.
• Biquíni ou maiô.
• Lanterna (as de cabeça são as melhores, pois deixam as mãos livres).
• Repelente.
• Máquina fotográfica.