É impossível ficar imune à presença dela. Com 1,75 metro de altura, uma estrutura que comporta curvas exuberantes e voz grave e firme, Ivete não chega, invade. Ela conversa de perto e olha fixamente nos olhos, dando a certeza, para quem ainda ousaria duvidar, de que se está diante de uma mulher segura, que sabe o que quer e que não vai deixar de ser ela mesma para agradar ninguém. No palco ou em cima de um trio elétrico, a cantora contagia e encanta. Não é à toa que é recordista mundial de vendas de DVDs: o Show no Maracanã teve 604 mil cópias comercializadas no mundo inteiro.
Ivete chegou à sessão de fotos no Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, vestindo jeans escuro e camisa clara. Não tinha um pingo de maquiagem – para ela, esse é um quesito dispensável no dia-a-dia. Sua pele é lisinha, uniforme e com um brilho que nenhuma base seria capaz de dar. Quando levantou a camisa para mostrar com orgulho a barriga, contando que tinha acabado de sair de um treino puxado de abdominais, provou que secou mesmo, e na medida certa.
Ela pratica atividade física há 12 anos, mas não com a freqüencia que gostaria. E, como qualquer uma de nós, se incomodava com a oscilação de peso, sempre em torno de 3 quilos. Aos 35 anos, resolveu apostar todas as fichas na dupla infalível: exercício quase diário feito com consciência e cuidado com a alimentação. Deu certo. Em seis meses de malhação intensa e reeducação alimentar com direito a cardápio de 1800 calorias, perdeu 4 quilos – ela pesa agora 66 quilos –, viu seus músculos saltarem e ganhou curvas mais bonitas do que no início da carreira, há 15 anos, com a Banda Eva.
Meio melão de sobremesa
A cantora cresceu em uma família bem estruturada, com bons hábitos (ela diz que se considera uma mulher careta). Mas o que aprendeu à mesa quando pequena precisou desaprender. Ou hoje estaria muito acima do peso. “Cresci ouvindo o meu pai dizer: ‘Pode comer até explodir!’ Como ele passou por dificuldades financeiras quando jovem, prometeu para si mesmo que comida e educação jamais faltariam aos filhos.”
“O almoço na minha casa parecia A Festa de Babette. Todos se reuniam em volta da mesa e eram servidos, diariamente, três tipos de carne”, conta, fazendo referência ao filme dinamarquês da década de 80, um clássico do cinema gastronômico. De sobremesa, tinha fruta. Mas não pense que era uma frutinha para cada um. A mãe dela comprava laranja aos centos. Manga, os filhos comiam três de cada vez. “Eu só conheci melão cortado em fatias depois de adulta. Antes, eu partia ao meio e comia de colher. Parecia a Magali, do gibi, devorava uma melancia inteira de cada vez.” A mudança alimentar só aconteceu ao final da adolescência – quando Ivete decidiu que não queria ser gordinha como seus irmãos.
É fome ou ansiedade?
O processo entre diminuir as porções e, finalmente, ganhar poder de decisão sobre a comida foi longo. Embora há muito tempo não devorasse frutas às dúzias, só no início do ano Ivete descobriu, com o auxílio da nutricionista Vicência Cheib, de Belo Horizonte (MG), a diferença entre fome e vontade de comer. Pode parecer simples, mas apenas depois que entendeu essa diferença é que ela ganhou autoridade sobre tudo aquilo que mastiga. “Parei de comer muita coisa, que antes beliscava só por desejo, ansiedade, sei lá”, diz.
Outra mudança: comer a cada três horas. Isso também ajudou a compreender os sinais da fome. “É fome ou estou agitada? Sempre falava para ela se fazer essa pergunta quando queria beliscar. Às vezes, isso é o suficiente para que a sensação de vazio no estômago passe”, fala Vicência.
Vic, como Ivete a chama, passou um mês na casa da cantora, em Salvador, de olho nos hábitos dela e preparando o cardápio de 1800 calorias <<
Ivete seguia tudo o que era proposto, mas desafiava a nutricionista. “Um dia ela me disse: ‘Aposto que feijoada não pode’. Respondi: claro que pode, depende da quantidade”, diz Vic. Depois, fez a mesma pergunta para o chocolate e o cuscuz do café-da-manhã. “Ela sempre ouvia a mesma resposta: depende da quantidade. Se a dieta for muito restritiva, você decide não seguir mais. Para mim, nada é proibido – mas é dosado”, fala.
Pela adesão de Ivete à nova maneira de olhar a comida, parece que a fórmula deu certo. No dia do ensaio fotográfico, enquanto fazia o cabelo, ela pediu o almoço. O prato foi salmão grelhado, arroz e salada de alface, tomate e pepino. Primeira atitude: arrancar as duas fatias de pepino que estavam na salada. “Detesto, tem um cheiro horrível!” Depois, saboreou cada garfada, comeu lentamente e, antes de terminar, quando sobrava mais ou menos um terço da porção, descansou os talheres sobre e prato e disse: “Estou saciada. Comeria mais, o salmão está maravilhoso, mas não tenho mais fome. Uma garfada a partir de agora seria gula”.
Dá para melhorar
“Sempre malhei e achava que comia direito, mas tinha, com freqüência, uma variação de 3 quilos na balança”, conta. O que atrapalhava o empenho de Ivete era o fato de viajar muito – afinal não é em todo lugar que há uma academia à sua disposição.
Para não interromper a malhação, Ivete contratou um personal que a acompanha em todas as viagens. Desde novembro do ano passado, faz exercícios de segunda a sexta-feira, sempre sob os olhos cuidadosos de Lucas Oliveira, de São Paulo. Agora, não há falta de estrutura que a faça ficar parada. Há dois tipos de treino, um nos aparelhos de musculação <<<
Nada de choramingo Acredite, mesmo se detestasse malhar, essa geminiana daria um jeito de encontrar um ponto positivo que a motivasse a seguir em frente. Ela faz assim com tudo. “Não gosto de ficar reclamando, acho até injusto.” Para a cantora, nenhuma chateação costuma durar mais do que um filme. “Quando estou triste, pego um DVD, desses que fazem a gente chorar, assisto, choro muito e a tristeza passa”, ensina. Ivete gosta da felicidade e preza o seu bem-estar. “Tenho muitos motivos para ser feliz. Rezo para Deus me ajudar a nunca perder a lucidez. E também agradeço tudo o que Ele me deu.”
Sem asas de borboleta
A baiana jura que mesmo sendo a popstar que é, sua vida difere muito pouco da de qualquer uma de nós. “Preciso de algumas facilidades, como o personal que me acompanha, porque minha agenda é louca, mas é só isso. Um dia a minha sobrinha me perguntou: ‘Tia, minhas amigas querem saber o que você come no café-da-manhã’. Eu disse: a mesma coisa que elas. Café com leite, cuscuz e pão.” Café com leite, aliás, é uma paixão. “Quando era pequena, minha mãe esfriava o café com leite jogando o líquido de um copo para o outro. Fazia uma espuma deliciosa e eu bebia aos golões. Acha que consigo ficar sem isso?”, pergunta.
Ela conta que gosta de assistir TV (noticiários e documentários), sair para almoçar com as amigas, ficar com os sobrinhos e namorar. “As pessoas acham que quem é famoso acorda de um jeito diferente, nem pisa no chão, caminha pela casa levitando, como se tivesse asas de borboleta. Não é nada disso, minha gente. É tudo igual. Sonho, erro, quero aconchego e não abro mão do meu bem-estar, como toda mulher deve fazer.” Ser ou não parecida com a gente, na verdade, é o que menos importa. A sensação que fica depois de conversar com ela e sentir a sua força é que vale a pena seguir o ritmo de Ivete – na música e na vida!
Realização: Leila Macedo | Estilo: Patrícia Zuffa | Cabelo e maquiagem: Fernando Torquato, RicardoTavares (assistente) | Assistentes de fotografia: Vítor Pickersgil e Tiago Rocha | Biquini Adiana Degreas, brincos e pulseiras Ana Rocha & Appolinário, corrente com cavalinho Jack Vartanian.