Luiza Almeida foi morar fora do país e ainda tem na memória os amigos que deixou para trás. Gabriella Silva saiu da casa da mãe com apenas 16 anos e recorda todas as tardes que chorou de saudade da família. Natália Falavigna lembra da época em que via os amigos se deliciando com salgadinho e refrigerante na hora do lanche enquanto ela comia apenas uma maçã. O incrível é que nenhuma dessas atletas sente pena de si mesma. Ao contrário. Elas se orgulham de perceber que superaram as dificuldades e realizaram o grande sonho de suas vidas: estão concorrendo a uma medalha olímpica nos Jogos de Pequim. “Sonhar implica escolher um caminho. Sempre que você faz uma opção, ganha alguma coisa e perde outra. Parece óbvio, mas geralmente a gente sofre porque esquece que não dá para ter tudo ao mesmo tempo”, explica Suzy Camacho, psicóloga de São Paulo.
Menos valor para cada perda
Então, é preciso ter em mente que ir atrás de um sonho significa encarar momentos difíceis e fazer coisas de que não gosta muito para continuar firme no objetivo. “Uma esportista certamente fica sem hambúrguer e batata frita. Isso é ruim? É. Mas o olhar dela está lá na frente, na medalha de ouro. É por isso que chega perto do sonho”, diz Mara Pusch, psicóloga da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O problema é que quase sempre a gente valoriza demais a perda. “Você não deve seguir uma dieta e se sentir a mais infeliz do mundo porque não pode comer brigadeiro. Não dá para se deliciar com o doce e ainda assim entrar na roupa justa. Se você mantiver o foco só no que está perdendo, não consegue olhar para o que vai ganhar”, completa Mara. A sugestão é inverter o jogo. Pense que cada brigadeiro que você deixa de lado é um degrau que a coloca mais perto do seu sonho de ficar com as curvas perfeitas.
Cada coisa no seu tempo
Outro aspecto que pode deixar o caminho para a vitória mais difícil é querer que tudo aconteça de uma hora para outra, como num passe de mágica. “Estamos na era da internet, o mundo é acompanhado em tempo real. Quando a gente se depara com algo que demora semanas, não entende. Mas ninguém vira presidente de uma empresa do dia para noite. Portanto, é normal levar alguns meses para emagrecer ou definir os músculos na academia”, diz Suzy Camacho. Por isso, ajuste o seu olhar na busca de cada vontade. Se você aceita que certas transformações não são imediatas, passa a ver o tempo como parceiro e não como inimigo. Foi assim que Luiza, Gabriella e Natália fizeram. Deu certo. Inspire- se nas moças e prepare a sua comemoração!
Três atletas e um sonho: ouro na Olimpíada
ATLETA: Luiza AlmeidaIDADE: 16 anos
MODALIDADE: hipismo
DIFICULDADE: deixar os amigos e sair do país
Como qualquer estudante da sua idade, era no colégio que Luíza encontrava os melhores amigos. Em casa, aproveitava a companhia dos pais e dos três irmãos para discutir o que acontecia na vida. Na hora em que surgiu a oportunidade de sair do Brasil para treinar hipismo, o coração ficou apertado. Mesmo assim, partiu rumo à Alemanha, onde está morando sozinha há quase um ano. “Não foi fácil perder a convivência com todos que amo, mas foquei 100% no meu lado profissional. Com isso, aprendi que tudo tem um preço”, conta. O começo foi a parte mais difícil: ela demorou para se adaptar à língua, aos costumes, à nova rotina e à distância da família. Ainda hoje, acha estranho o silêncio da casa e o sabor da comida alemã – que, segundo ela, é sem gosto e sem sal. Não é à toa que já faz planos para voltar ao país assim que terminar a Olimpíada. “Vou reunir a família e os amigos para uma feijoada e juntar tudo o que me faz feliz num só almoço”, diz.
ATLETA: Gabriella Silva
IDADE: 19 anos
MODALIDADE: natação
vDIFICULDADE: cortar o chocolate da dieta
Desde os 8 anos, Gabriella sonhava em ser atleta. Aos 16, foi obrigada a deixar a família no Rio de Janeiro para treinar em Minas Gerais. Por causa disso, passou um ano chorando diariamente. “Quando você fica longe das pessoas de que gosta, sente falta das coisas mais bobas do mundo. Tinha saudade da família reunida no almoço de domingo, da ida à praia e das confi dências com a minha irmã”, lembra. Hoje, às vésperas de Pequim, recorda do esforço que fez e sente-se feliz por ter superado tamanha dificuldade. Porém, enfrenta um novo obstáculo: cortar o chocolate. “Sempre fui chocólatra, comia pelo menos três barras por dia. Agora, só nos fi nais de semana e olhe lá. Quero estar na minha melhor forma para a Olimpíada. É assim mesmo, não dá para a gente ter tudo ao mesmo tempo.”
ATLETA: Natália FalavignaIDADE: 24 anos
MODALIDADE: tae-kwon-do
DIFICULDADE: ficar longe das guloseimas e conciliar estudo e treino
Quem vai atrás do que deseja geralmente pega gosto por superar as dificuldades. E Natália é um exemplo disso. “Não fico choramingando pelo que não posso ter”, diz. A lutadora vive em dieta desde os 14 anos, época em que os amigos devoravam salgadinho enquanto ela se contentava com as frutas. Mas o sonho de ser atleta sempre foi maior do que a tentação de fazer tudo igual aos outros. Por isso, mesmo competindo, continuou os estudos (este ano, se forma em educação física). Assim, não sobra tempo para quase nada. Se quer ver uma amiga, tem somente o sábado livre.“As limitações existem. Porém, o desejo de receber uma medalha é muito maior do que qualquer outra vontade.”